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O joelho doía depois do treino, mas algo diferente aconteceu desta vez. Além da dor habitual, surgiu um formigamento persistente que desce pela perna, uma sensação de dormência abaixo do joelho e uma fraqueza muscular que não parece ser só de cansaço. O paciente pesquisa, encontra referências à artrose, à tendinite, à lesão de menisco, mas nenhuma dessas parece encaixar perfeitamente no que está sentindo. O que muitas vezes está por trás desse quadro tem um nome pouco conhecido fora dos consultórios de ortopedia: a neurapraxia do joelho.
A neurapraxia é uma lesão nervosa periférica de caráter temporário, classificada como o grau mais leve dentro do espectro das lesões de nervo periférico. Ela não destrói o nervo nem compromete sua estrutura de forma permanente. O que ocorre é uma interrupção transitória na condução dos sinais elétricos pelo nervo, provocada por compressão, tração ou isquemia local. Quando a causa é removida e as condições biológicas se restabelecem, o nervo se recupera sem deixar sequelas.
Apesar de ser a lesão nervosa de melhor prognóstico, a neurapraxia do joelho é frequentemente subdiagnosticada. Isso acontece porque seus sintomas, como formigamento, dormência e fraqueza, são facilmente atribuídos a outras condições ortopédicas muito mais conhecidas. O resultado é que o paciente começa a tratar o joelho por uma via errada, sem abordar o componente nervoso que está gerando os sintomas.
Neste blog do Dr. Itamar Neto, ortopedista especialista em joelho em Brasília, você vai entender o que é a neurapraxia do joelho, quais nervos são afetados, como o diagnóstico é feito, quais são as opções de tratamento e como diferenciar essa condição de outras causas de dor e dormência no joelho. Continue lendo.
A neurapraxia é a lesão de menor grau dentro da classificação de Seddon para lesões de nervos periféricos, utilizada pela ortopedia e neurologia para organizar as lesões nervosas de acordo com sua gravidade. Essa classificação divide as lesões em três categorias: neurapraxia, axonotmese e neurotmese, em ordem crescente de gravidade.
Na neurapraxia, os axônios, que são as estruturas dentro do nervo responsáveis pela condução dos impulsos elétricos, permanecem intactos. O que ocorre é uma desmielinização focal: a bainha de mielina, que envolve o axônio e funciona como um isolante elétrico, sofre um comprometimento localizado. Isso bloqueia ou reduz a transmissão dos sinais nervosos naquele ponto específico, gerando os sintomas sensoriais e motores característicos.
Como os axônios não são destruídos, o processo de remielinização pode ocorrer naturalmente após a remoção da causa compressiva. A condução nervosa volta a aparecer progressivamente, com recuperação completa da função em semanas ou meses, dependendo da intensidade e da duração do evento que originou a lesão.
Aplicada ao joelho especificamente, a neurapraxia do joelho envolve a compressão ou tração transitória dos nervos que percorrem e inervam essa região: o nervo fibular comum, o nervo safeno, ramos do nervo femoral e, em situações específicas, o nervo ciático. Cada um desses nervos responde por funções sensitivas e motoras em áreas distintas do joelho e da perna.
A anatomia nervosa do joelho é complexa e envolve múltiplos ramos que percorrem regiões de vulnerabilidade anatômica. Os principais nervos afetados na neurapraxia do joelho são:
É o nervo mais frequentemente comprometido em lesões ao redor do joelho. Ele contorna a cabeça da fíbula, na face lateral do joelho, uma região de pouca proteção por tecidos moles. Nesse ponto, qualquer compressão direta, gessamento mal ajustado, trauma lateral ou posição prolongada com o joelho cruzado pode provocar neurapraxia do nervo fibular. Os sintomas incluem dormência no dorso do pé e fraqueza para elevar o pé (pé caído).
Ramo sensitivo do nervo femoral, o nervo safeno percorre a face interna do joelho e pode ser comprometido em traumas mediais, cirurgias na região ou compressões prolongadas. Quando afetado, provoca dormência e formigamento na face interna da perna e do joelho, sem componente motor associado.
O nervo femoral inerva o quadríceps femoral e pode ser afetado por compressão no contexto cirúrgico, especialmente em artroscopias com uso de garrote pneumático. Uma publicação da Revista Brasileira de Ortopedia relata casos de neurapraxia do nervo femoral associada ao uso inadequado de torniquete em artroscopias do joelho, com recuperação espontânea na maioria das situações após a remoção da causa compressiva.
Em lesões mais proximais ou em contextos de luxação do joelho, o nervo ciático e seus ramos podem ser comprometidos. Nesses casos, o quadro tende a ser mais abrangente, com fraqueza motora significativa e alterações sensitivas que vão além da região do joelho.
A neurapraxia do joelho pode ser desencadeada por uma variedade de situações, que têm em comum a aplicação de força mecânica sobre o nervo de intensidade insuficiente para destruir sua estrutura, mas suficiente para bloquear temporariamente sua função. As causas mais comuns incluem:
• Trauma direto na região lateral do joelho: quedas, impactos esportivos ou acidentes que comprimem o nervo fibular ao redor da cabeça da fíbula são uma causa frequente de neurapraxia do joelho em atletas
• Luxação do joelho: a translação brusca dos ossos do joelho pode tracionar nervos e vasos da região poplítea, sendo o nervo fibular comum o mais vulnerável nessas situações
• Lesões ligamentares graves: lesões do LCA e do LCP associadas a traumas de alta energia podem incluir componente de tração nervosa
• Compressão prolongada: permanecer muito tempo com o joelho em posição forçada, como agachado ou com a perna cruzada, pode comprimir o nervo fibular e provocar neurapraxia transitória
• Procedimentos cirúrgicos: o uso de garrote pneumático durante artroscopias ou cirurgias abertas do joelho pode comprimir o nervo femoral ou o nervo fibular, especialmente quando o tempo de garroteamento é prolongado ou a pressão é excessiva.
• Imobilização inadequada: gessos ou órteses mal ajustadas que criam pontos de pressão sobre nervos superficiais da região do joelho
• Hematoma ou edema pós-traumático: o acúmulo de líquido ou sangue ao redor do joelho pode comprimir mecanicamente os nervos adjacentes, gerando um quadro de neurapraxia secundária
Os sintomas da neurapraxia do joelho variam conforme o nervo afetado e o grau de comprometimento da condução nervosa. De modo geral, o quadro é dominado por alterações sensitivas, com ou sem fraqueza muscular associada:
A dormência é um dos sintomas mais relatados. Ela pode ser localizada em uma área específica do joelho, como a face lateral ou medial, ou irradiar para a perna e o pé dependendo do nervo afetado. Diferente da dormência por artrose, que tende a ser difusa, a dormência na neurapraxia do joelho tem uma distribuição topográfica que segue o trajeto do nervo comprometido, um dado importante para o diagnóstico.
O formigamento, também chamado de parestesia, é a sensação de "agulhadas" ou "choque" que acompanha o bloqueio parcial da condução nervosa. Pode aparecer em repouso ou ser desencadeado por movimentos específicos do joelho que comprimem ou tensionam o nervo afetado. Em alguns casos, o simples toque na região do nervo reproduz o formigamento no trajeto correspondente, um achado clínico chamado sinal de Tinel.
A neurapraxia compromete mais a função motora do que a sensitiva, especialmente nas fibras de maior calibre responsáveis pela condução de impulsos motores. Na prática, isso pode se manifestar como dificuldade para elevar o pé ao caminhar, fraqueza para estender o joelho completamente ou sensação de instabilidade durante a marcha.
Na neurapraxia do nervo fibular, o "pé caído" é o sinal motor mais característico: o paciente arrasta o pé ao caminhar porque não consegue realizar a flexão dorsal adequadamente.
Dependendo da causa e do nervo envolvido, podem ocorrer também alterações na percepção de temperatura e pressão na área inervada, sensação de queimação ou choque elétrico ao longo do trajeto nervoso e, em casos mais intensos, dificuldade para perceber a posição do pé no espaço, o que aumenta o risco de quedas.
O diagnóstico da neurapraxia do joelho começa com uma história clínica detalhada e exame físico neurológico. O ortopedista investiga o mecanismo do trauma, a distribuição exata dos sintomas, a presença ou ausência de fraqueza motora e os achados ao sinal de Tinel na região do joelho.
Os exames complementares têm um papel importante, especialmente para confirmar o grau da lesão e afastar condições que mimetizam a neurapraxia:
• Eletroneuromiografia (ENMG): é o exame de referência para avaliar lesões nervosas periféricas. Ela mede a velocidade de condução nervosa e a resposta muscular à estimulação elétrica, permitindo localizar o bloqueio de condução e diferenciar a neurapraxia de lesões mais graves como a axonotmese e a neurotmese. Na neurapraxia, a condução está preservada distalmente ao ponto de lesão, um achado que diferencia essa condição das demais
• Ressonância magnética: não avalia diretamente a condução nervosa, mas é útil para identificar causas de compressão nervosa ao redor do joelho, como hematomas, cistos ganglionares, edema ou lesões estruturais como rupturas ligamentares e meniscais.
• Ultrassonografia de alta resolução: permite visualizar o trajeto do nervo fibular e identificar sinais de compressão, espessamento ou edema nervoso em tempo real, sendo especialmente útil na avaliação do nervo fibular ao redor da cabeça da fíbula
O diagnóstico diferencial inclui outras causas de dormência e fraqueza no joelho: artrose avançada com comprometimento nervoso secundário, hérnia de disco lombar irradiando para o membro inferior, síndrome do túnel do tarso, lesões musculares e compressões vasculares. A topografia dos sintomas e os achados da ENMG são os elementos mais decisivos para diferenciar a neurapraxia do joelho dessas condições.
A boa notícia mais importante sobre a neurapraxia do joelho é que ela tem excelente prognóstico. A recuperação espontânea é a regra na maioria dos casos, desde que a causa compressiva seja identificada e removida. O tratamento segue três eixos principais:
O primeiro e mais importante passo é eliminar o fator que está comprimindo ou tracionando o nervo. Isso pode significar correção do posicionamento, retirada ou ajuste de imobilizações, drenagem de hematomas compressivos ou redução de edema com medidas físicas e medicamentosas. Enquanto o nervo se recupera, é fundamental proteger a área afetada para evitar novos episódios de compressão.
A fisioterapia tem papel central no tratamento da neurapraxia do joelho, especialmente quando há fraqueza muscular associada. O protocolo inclui exercícios ativos e passivos para manter a amplitude de movimento do joelho e do tornozelo, fortalecimento muscular progressivo à medida que a função nervosa se recupera, treino de equilíbrio e propriocepção para compensar a redução temporária da sensação de posição e recursos eletroterapêuticos como TENS e laser de baixa intensidade para reduzir a dor e estimular a remielinização.
Na neurapraxia do nervo fibular com pé caído, o uso de uma órtese de tornozelo que mantenha o pé em posição neutra durante a marcha é essencial para prevenir quedas e manter a funcionalidade do paciente enquanto o nervo se recupera. Ela é retirada progressivamente conforme a força muscular retorna.
Quando há componente de dor neuropática associado, medicações como gabapentina e pregabalina podem ser prescritas para controle dos sintomas. Anti-inflamatórios têm papel limitado, mas podem ser usados pontualmente para reduzir edema que esteja contribuindo para a compressão nervosa.
Na neurapraxia do joelho por definição, a cirurgia raramente é necessária. A intervenção cirúrgica fica reservada para casos em que a compressão nervosa tem uma causa estrutural que não pode ser resolvida de forma conservadora, como um cisto de Baker volumoso, um hematoma organizado ou uma cicatriz fibrosa que aprisiona o nervo.
Nos casos de lesão nervosa mais grave, como axonotmese ou neurotmese, a decisão cirúrgica segue outros critérios e prazos específicos.
Sim. A neurapraxia do joelho tem cura na grande maioria dos casos. Por não envolver destruição axonal, o processo de remielinização após a remoção da causa compressiva leva à restauração progressiva da condução nervosa. A literatura indica que a recuperação completa ocorre tipicamente entre 4 e 12 semanas, com casos mais intensos podendo se estender até 6 meses.
O prognóstico é influenciado por alguns fatores: quanto mais cedo a causa for identificada e removida, mais rápida e completa tende a ser a recuperação. Episódios repetidos de compressão sobre o mesmo nervo aumentam o risco de evoluir para uma lesão de maior gravidade, com comprometimento axonal e recuperação mais lenta. Por isso, a identificação precisa da causa da neurapraxia é tão importante quanto o tratamento dos sintomas.
Acompanhamento periódico com eletroneuromiografia durante a recuperação permite monitorar objetivamente a regeneração da condução nervosa e ajustar o protocolo de reabilitação conforme a evolução.
Se você percebe dormência, formigamento ou fraqueza muscular ao redor do joelho após um trauma, cirurgia, período de imobilização ou mesmo após uma posição prolongada, não atribua esses sintomas automaticamente a cansaço ou à artrose. A neurapraxia do joelho precisa ser reconhecida para ser tratada corretamente.
Busque avaliação especializada especialmente se os sintomas persistirem por mais de alguns dias, se houver fraqueza muscular que dificulte caminhar, se o formigamento piorar com o tempo em vez de melhorar ou se você tiver passado por uma cirurgia de joelho recentemente e perceber alterações de sensibilidade ou força que não estavam presentes antes do procedimento.
O Dr. Itamar Neto, ortopedista e traumatologista especialista em joelho em Brasília, realiza avaliação completa dos pacientes com suspeita de neurapraxia do joelho, com exame físico neurológico detalhado e solicitação dos exames complementares necessários para confirmar o diagnóstico e planejar o tratamento mais adequado para cada caso. Agende sua consulta com o Dr. Itamar Neto!