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  • Por: Dr. Itamar
  • 24/04/2026

FVE no joelho: o que é e como funciona o tratamento

Imagine que o próprio corpo carregue, no tecido gorduroso, uma reserva de células com capacidade de se transformar em cartilagem, modular inflamação e estimular a regeneração articular. Não é ficção científica. Essa é a lógica por trás de um dos tratamentos mais promissores da medicina regenerativa aplicada à ortopedia: a fração vascular estromal, conhecida pela sigla FVE.

A FVE no joelho surge como uma resposta aos limites dos tratamentos convencionais. Anti-inflamatórios, infiltrações de corticosteroide e até o ácido hialurônico atuam principalmente sobre os sintomas. A FVE propõe algo diferente: fornecer ao joelho um complexo biológico rico em células-tronco mesenquimais, células progenitoras endoteliais e fatores de crescimento extraídos do tecido adiposo do próprio paciente, para que a articulação tenha condições de se reparar de dentro para fora.

No blog do Dr. Itamar Neto, ortopedista especialista em joelho em Brasília, você vai entender o que é a FVE, como o procedimento funciona na prática, para quais condições ela é indicada, o que a ciência diz sobre seus resultados e como saber se essa pode ser a opção certa para o seu caso. Continue lendo.

O que é a fração vascular estromal?

A fração vascular estromal é um subproduto heterogêneo obtido do processamento do tecido adiposo. O nome pode parecer técnico, mas a ideia central é direta: o tecido gorduroso humano é muito mais do que uma reserva de energia. Ele é um dos tecidos mais ricos em células mesenquimais do organismo, e a FVE é exatamente a fração que concentra esse potencial terapêutico.

A FVE do tecido adiposo é uma fonte rica em pré-adipócitos, células-tronco mesenquimais (CTMs), células progenitoras endoteliais, linfócitos T, linfócitos B, mastócitos e macrófagos do tecido adiposo. Esse perfil celular diversificado é o que confere à FVE sua capacidade de atuar em múltiplas frentes dentro da articulação do joelho: regenerar tecidos, modular a resposta inflamatória e promover a formação de novos vasos sanguíneos.

Ao contrário de terapias que utilizam células isoladas ou cultivadas em laboratório, a FVE preserva o conjunto original de células e fatores presentes no tecido adiposo. Essa complexidade biológica é considerada uma vantagem terapêutica: a interação entre os diferentes tipos celulares potencializa os efeitos regenerativos e parácrinos de cada componente.

Como funciona o procedimento da FVE no joelho?

O procedimento da FVE no joelho é realizado em ambiente ambulatorial e pode ser dividido em três etapas principais:

1. Coleta do tecido adiposo

Sob anestesia local, realiza-se uma mini-lipoaspiração, geralmente na região abdominal ou do flanco. A quantidade de tecido coletado é pequena, em torno de 30 a 100 ml, o suficiente para obter um concentrado celular adequado sem desfigurar o local de coleta. O procedimento é minimamente invasivo e bem tolerado.

2. Processamento e obtenção da FVE

O lipoaspirado é então processado, geralmente por digestão enzimática, lavagem e centrifugação, para separar e concentrar a fração vascular estromal. Esse processamento pode ocorrer em laboratório especializado ou, em alguns protocolos, no próprio centro cirúrgico em tempo real, dentro do prazo de uma única sessão. O produto final é um concentrado celular em solução pronto para ser aplicado.

3. Infiltração intra-articular no joelho

O concentrado de FVE é injetado diretamente na cavidade articular do joelho, geralmente com guia de ultrassonografia para garantir a precisão da aplicação. A partir daí, as células iniciam seu trabalho: aderem às estruturas articulares, liberam moléculas sinalizadoras, modulam a inflamação local e estimulam processos de regeneração da cartilagem e dos tecidos sinoviais.

Como a FVE age no joelho?

A FVE no joelho atua por mecanismos complementares que vão além do simples alívio sintomático. Entendê-los ajuda a compreender por que essa terapia representa um avanço em relação às abordagens tradicionais:

•  Diferenciação celular: as células-tronco mesenquimais presentes na FVE têm capacidade de se diferenciar em condrócitos, as células responsáveis pela produção e manutenção da cartilagem articular. Isso cria potencial real de regeneração do tecido desgastado.

•  Efeitos parácrinos: independentemente da diferenciação direta, as células da FVE secretam citocinas anti-inflamatórias, fatores de crescimento e moléculas sinalizadoras que criam um microambiente favorável à reparação tecidual e inibem a progressão da degeneração articular.

•  Imunomodulação: a FVE modula a resposta imune local, reduzindo a inflamação crônica da membrana sinovial, que é um dos principais mecanismos de dor e progressão da artrose.

•  Angiogênese: as células progenitoras endoteliais da FVE estimulam a formação de novos vasos sanguíneos, melhorando a nutrição dos tecidos articulares e acelerando processos de reparo.

Esse conjunto de ações posiciona a FVE no joelho dentro de um patamar diferente das terapias que simplesmente suprimem sintomas. O objetivo é criar as condições biológicas para que a articulação se mantenha e, em alguns casos, se recupere estruturalmente.

O que a ciência diz sobre a FVE no joelho?

A base de evidências para a FVE no joelho cresceu consideravelmente nos últimos anos. Alguns achados relevantes da literatura:

Uma revisão sistemática publicada em 2022 analisou nove estudos envolvendo 239 pacientes e 274 joelhos, com acompanhamento de até 24 meses. Todos os estudos demonstraram melhora da dor e da funcionalidade, e cinco deles relataram melhoras estruturais detectadas por ressonância magnética. Os autores concluíram que a FVE é um tratamento seguro para artrose do joelho, com resultados promissores em dor, função e estrutura articular.

Um estudo prospectivo publicado em Frontiers avaliou especificamente a regeneração de cartilagem com imagens de ressonância magnética 3D em pacientes com artrose do joelho nos graus I e II. Os resultados mostraram aumento significativo da espessura e da área da cartilagem tanto no côndilo femoral quanto na tíbia nos grupos tratados com FVE em 12 e 24 semanas, com perfil de segurança satisfatório.

Um estudo randomizado e controlado avaliou 66 pacientes com artrose do joelho divididos em três grupos: FVE isolada, reabilitação convencional e combinação de ambas. Os resultados indicaram que a infiltração de FVE, tanto isolada quanto combinada com reabilitação, melhorou significativamente a dor, a função e a rigidez articular, com efeitos que continuaram progredindo ao longo de 12 meses de acompanhamento.

Para quais condições a FVE no joelho é indicada?

A FVE no joelho não é indicada para todos os pacientes nem para todos os graus de comprometimento articular. Sua indicação mais consolidada é para:

•  Artrose do joelho nos graus I a III (escala de Kellgren-Lawrence): especialmente quando o tratamento conservador convencional não ofereceu alívio adequado e o paciente ainda não é candidato à prótese ou deseja retardar esse procedimento. 

•  Lesões condrais focais: áreas de comprometimento da cartilagem articular que se beneficiam do estímulo regenerativo das células mesenquimais.

•  Falha de resposta a outros ortobiológicos: pacientes que não responderam satisfatoriamente ao PRP ou ao BMAC podem ser candidatos à FVE, que oferece um perfil celular mais amplo.

•  Complemento a procedimentos cirúrgicos: a FVE pode ser utilizada como adjuvante em cirurgias de cartilagem para ampliar o potencial regenerativo no pós-operatório.

 

Estudos indicam que pacientes mais jovens, com IMC adequado e artrose em graus iniciais tendem a apresentar melhores respostas ao tratamento. Pacientes com grau IV avançado e grandes deformidades estruturais têm benefício limitado.

FVE, PRP e BMAC: qual a diferença?

Os três fazem parte do universo dos ortobiológicos, mas diferem no mecanismo e no perfil de complexidade:

•  PRP (plasma rico em plaquetas): obtido do sangue periférico, atua principalmente pela liberação de fatores de crescimento derivados das plaquetas. É o menos invasivo dos três, com boa evidência para artrose inicial e tendinopatias.

•  BMAC (concentrado de medula óssea): obtido por aspiração da medula óssea, geralmente da crista ilíaca. Contém células mesenquimais com alto potencial de diferenciação, indicado para lesões de maior comprometimento.

•  FVE no joelho: obtida do tecido adiposo, apresenta a maior densidade de células mesenquimais dos três. O perfil celular heterogêneo, que inclui células progenitoras endoteliais e imunorreguladoras, oferece uma ação mais ampla sobre a articulação. 

 Em alguns protocolos, PRP e FVE são combinados na mesma sessão. Estudos preliminares sugerem que a associação pode potencializar os efeitos de ambos, com PRP melhorando a retenção local das células da FVE e amplificando a resposta dos fatores de crescimento.

A FVE no joelho é segura?

O perfil de segurança da FVE no joelho é consistentemente favorável na literatura. Por ser autóloga, o risco de rejeição imunológica é eliminado. Os efeitos adversos mais relatados são leves e transitórios:

•  Dor e inchaço temporários no local da coleta (abdome) e no joelho infiltrado, que costumam se resolver em poucos dias

•  Discreto hematoma no local da mini-lipoaspiração

•  Piora transitória dos sintomas nas primeiras semanas, antes da melhora progressiva

Complicações graves, como infecção intra-articular ou reações sistêmicas significativas, são raras quando o procedimento é realizado em ambiente adequado e por profissional treinado. A revisão sistemática de 2023 publicada em Medicina (Kaunas) que analisou 22 estudos reportou eventos adversos mínimos em toda a casuística estudada.

A FVE no joelho é a opção certa para o seu caso?

Se você tem artrose do joelho, lesão cartilaginosa ou dor crônica que não respondeu adequadamente aos tratamentos convencionais, a FVE no joelho pode representar uma nova perspectiva terapêutica. Mas a decisão precisa partir de uma avaliação ortopédica detalhada.

O Dr. Itamar Neto, ortopedista e traumatologista especialista em joelho em Brasília, acompanha o campo das terapias regenerativas de perto e trabalha com os principais ortobiológicos disponíveis atualmente, incluindo a FVE no joelho, dentro de um protocolo individualizado e embasado nas melhores evidências científicas. 

O objetivo é sempre oferecer ao paciente o tratamento mais adequado para o seu diagnóstico e para a sua vida.Agende sua consulta com o Dr. Itamar Neto!